Dia das mães em meio à pandemia

 
Foto Unsplsh

Hoje celebramos o dia das mães. Sempre no segundo domingo de maio, porém este ano será atípico, celebrado em meio à pandemia do covid-19. 

Mas, como sabemos, dia das mães é todo dia! E no dia de hoje temos a oportunidade de rememorarmos os fios dessa tessitura entre mães e filhos. Celebrar em meio a tudo que acontece atualmente, talvez nos traga um significado maior do que elas representam em nossas vidas, tanto aquelas que estão vivas, quanto com as que estão no paraíso.

Na comunidade do Monte Serrat, profundamente matriarcal, na celebração de ontem, sábado que antecedeu o dia das mães, tecemos os fios do significado das mães na vida familiar, comunitária e nas lutas sociais. A comunidade rememou e hoje vai continuar rememorando, mesmo no afastamento social, os sentimentos que afloram de ternura, afeto e aprendizagem das nossas queridas matriarcas.

Ao escrever estas linhas tentei, buscar no fundo do baú, a minha versão feminina na relação com o masculino, e trazer à memória mais marcada em minha pele, entre as histórias vividas com minha mãe. A lembrança é da mesa, uma mesa grande com dois bancos compridos onde sentávamos os onze filhos e filhas, essa mesa me traz a memória do fruto do trabalho coletivo de uma família operária. O ato de comer coletivamente em torno da mesa, a lembrança do fogão a lenha, me trazem ao nariz um perfume do saber e do sabor, palavras que vem da mesma raiz, a cozinha continuamente com o cheiro da beleza de uma comida tão bem trabalhada pelas mãos daquela que me trouxe ao mundo.

Os sentimentos em torno da mesa de minha casa e da mesa de todas as casas, é da Eucaristia, que se alarga e sempre acolhe mais um. A mesa de casa sempre me remeteu a mesa do altar, que por sua vez, me remete a mesa do bem comum. Essa visão eucarística dos bens produzidos e compartilhados é o núcleo central da justiça social. Nesta perspectiva, para mim, a eucaristia tornou-se uma mesa alargada que acolhe as periferias geográficas e existências.

Em minhas lembranças, outra bela memória é o avental, que me remete ao serviço gratuito e amoroso. Desde a minha ordenação presbiteral, para mim, a estola se tornou símbolo de uma igreja do serviço e em saída, meu avental.

Ao ver nosso templo vazio de pessoas, mas cheio de cestas básicas, me dá uma imensa alegria do verdadeiro valor dos gestos eucarísticos, como nas comunidades primitivas onde ninguém passava fome. 

Nestes tempos de pandemia, em que se escancarou a desigualdade social, tornou-se visível o grito das mães da periferia, pela necessidade de pão em suas mesas. 

Mãe, mulher, luta, mesa, avental e útero tem uma interdependência com a grande mãe terra (Gaia). Trabalhar essas conexões em tempos de pandemia é construir uma solidariedade estrutural que vem do ventre das mães e do grande ventre da mãe terra, na compreensão da ecologia integral, onde tudo está interligado. A ecologia integral vem do saber de nossas mães, onde nunca se desperdiçava um só pedaço de pão.

No fio dessas tessituras, nosso apelo é que transformemos o dia de hoje, e com um gesto amoroso de compaixão, que possamos presentear uma mãe que carrega nas entranhas a fome dos filhos, com uma cesta básica, num gesto de amor ao próximo.

Nas últimas sete semanas, a REDE IVG tentou cumprir a missão de chegar a cada mãe com uma cesta básica. A REDE entregou 4.252 cestas básicas e kits de higiene, limpeza e máscaras. Foram, 2.611 cestas adquiridas com recursos do Fundo de Apoio às Famílias Empobrecidas da REDE IVG, outras 1.641 vieram através de doações. Entregamos mais de 600 cestas por semana, chegando a marca de 59.528 quilos de alimentos. O Fundo já distribuiu R$ 117.494,89 em cestas básicas. E recebeu em doação de cestas, R$ 73.845,00, totalizando R$ 192.339,89.

Podemos afirmar que somos uma gota no oceano, mas essa gota só foi possível porque representa a multiplicação dos pães. Sua gesto contribuiu e fez a diferença na vida de cada mãe que recebeu uma cesta. 

O Papa Francisco nos incentiva, neste momento, a criar anticorpos necessários da justiça, da caridade e da solidariedade contra a globalização da indiferença. Ele nos diz: “Não tenhamos medo de viver a alternativa da civilização do amor, que é um a civilização da esperança: contra angústia e o medo, a tristeza e o desalento, a passividade e o cansaço. A civilização do amor se constrói no dia a dia de modo ininterrupto. Supõe, para isso uma comprometida comunidade de irmãos.”

Contamos com a continuidade do seu gesto para o fundo da REDE IVG, na possibilidade de continuarmos colocando pão nas mesas das famílias das periferias. Desejo a todas mães um santo dia, com uma mesa equânime e digna. 

Abraço fraterno,

Pe. Vilson Groh


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