O FLORESCER COMUNITÁRIO

A Mudança é Uma Colheita

Nesses últimos meses temos ouvido muito sobre as grandes mudanças que a pandemia em curso vai impor ao mundo, sobretudo no seu funcionamento econômico e social. Como um padre das periferias e espaços de exclusão, mas também como membro de uma sociedade civil que se organiza e trabalha por justiça social, tenho sido convidado para participar de alguns fóruns que pretendem adivinhar ou intuir esse futuro. Nessas discussões, muitos falam das mudanças que serão inevitáveis, outros das que serão necessárias. Me obrigo a esperançar, acreditar que a partir daqui as mudanças necessárias serão também inevitáveis. 

As desordens econômica, social e ambiental que temos vivido há muito, não podem mais ser toleradas. Nem podem ser compulsórias de uma normalidade que desejamos resgatar, como se fossemos incapazes de construir novos caminhos. Quando dizem com convicção que a humanidade emergirá desse desafio com uma consciência muito maior, dando mais valor ao outro, ao meio ambiente e ao que é simples e essencial, confesso que a imagem de São Tomé me vem à mente antes do que a de São Francisco. É assustador o aumento da pobreza e da desigualdade. Como são assustadores os retrocessos nos direitos básicos para uma parcela enorme da população. E só o trabalho incansável de todos nós pode fazer frente a essa realidade.

Há poucos dias, depois de meses em uma quase reclusão imposta pela pandemia e pela minha entrada na terceira idade, fui ao encontro dos moradores em situação de rua no abrigo municipal provisório e também nas ruas do centro de Florianópolis. Os conheço pelos rostos, pelos nomes e pelas histórias de vida. Houve alegria e muito afeto nesse reencontro, porque essa sempre foi minha rotina noturna e semanal. Mas o que presenciei, nunca tinha visto. As trezentas refeições que levamos sumiram das mãos num átimo. E as condições em que estão estas pessoas são mais que indignas, mais que degradantes. Sinto que de subumanas estão se tornando condições não-humanas, animalizantes. Ou pior. No caminho de volta me veio à memória o sítio onde cresci, em Brusque. Lembrei do meu pai preocupado com o frio e com a umidade no chão dos estábulos e currais onde dormiam os animais. Nos fazia tapar as frestas e forrar o chão de madeira com muita serragem. Nas madrugadas mais frias, ia confirmar se estavam aquecidos. Nós, nossa cidade, nossos representantes, não podemos oferecer para a população de rua algo que possamos chamar – minimamente – de dignidade humana? Aquilo que vi é o que podemos oferecer? Há uma década apenas o número de moradores de rua na cidade havia caído drasticamente e agora esse número cresce semanalmente sem que nem se discuta a urgência de oferecermos verdadeiras casas de acolhimento que respeitem essa mínima dignidade. Será que a vergonha não nos toma? Acreditamos que esse é um fato inevitável? Não pensamos que isso precisa mudar? Talvez, apenas pensamos.

Mudanças são processos. São frutos da necessidade, da consciência e da ação. Não acontecem por mística ou por transferência da responsabilidade para entes difusos como “o mundo”, “o povo”, “a sociedade” ou “as elites”. Como frutos que queremos colher, as mudanças precisam percorrer um inevitável e natural caminho para que amadureçam e sejam colhidas nesse jardim que é a nossa casa comum, o nosso planeta. Isso é muito mais que uma metáfora. É a lembrança de que somos parte indissociável da natureza. E que tê-la como conselheira, em tão delicado processo, vai muito além de encontrar uma poesia de ocasião. É amparar-se na sabedoria da mãe, no mais profundo dos sentidos.

Sabemos que as mudanças seguirão confrontando interesses e que pequenas ou grandes barreiras seguirão sendo construídas pela ganância, desumanidade, violência, ou apenas pela ignorância. Mas há muito por aprender, criar e avançar na busca por justiça social. Este texto é sobre isso, uma especulação, uma partilha de conceitos e também uma proposição realista a partir do poder transformador que vive em todos nós.

Da Semente ao Florescer 

Com quarenta anos dedicados a projetos e processos de transformação social, tentando estreitar os espaços entre centro e periferias, gostaria de refletir sobre os processos individuais e coletivos que se entrelaçam no caminho para a mudança.

Primeiro, incluir. É importante lembrar que um coletivo forte não se faz na comunhão de ideias. Um coletivo forte se faz com ideias e opiniões diferentes em torno de uma mesma consciência. 

E como surge uma consciência solidária coletiva? Como tudo que frutifica, de sementes. E as sementes de uma consciência solidária são as mensagens cotidianas emitidas por uma sociedade. Começa pelo papel social do estado, por seu gestores e instituições, pelos educadores, pela cultura empresarial, pelos meios de comunicação, pelas lideranças populares e pelos formadores de opinião em geral. A percepção das ações que tratam a solidariedade como questão estratégica e estrutural é a mais eficiente pedagogia para transformarmos essa consciência na marca de uma sociedade. Têm, portanto, as instituições, os investimentos, as leis e diretrizes,  um poder e um dever seminais neste processo. 

Mas é também dentro de cada ser humano que essa consciência precisa se desenvolver. Sinto que a fase adulta da consciência solidária é o movimento, a busca pelo gesto. É irmos ao encontro do outro, de uma outra história e sentir-se parte dela. É nos encharcar com a realidade das coisas a partir de um olhar e de uma escuta sem preconceitos. Considero esse encharcamento um momento de grande beleza e mística. Um momento de presença absoluta, inteira e sagrada no mundo. É nos regar com a humanidade.

Sobre essa mudança interna e seu poder, Gandhi nos ensina: “Se pudéssemos mudar a nós mesmos, as tendências do mundo também mudariam. À medida que um homem muda sua própria natureza, também a atitude do mundo em direção a ele muda. Este é o mistério divino supremo. É uma coisa maravilhosa e a fonte da felicidade. Não precisamos esperar para ver o que os outros fazem.” 

Encharcada de outras vidas, a consciência solidária segue crescendo e procura coerência no tecido social, até fixar raízes na responsabilidade e se tornar um compromisso. Um compromisso comunitário, como nos diz o Papa Francisco em um diagnóstico luminar chamado “A Crise do Compromisso Comunitário”, em que fala da atual crise do cuidado, da crise do amor pela casa comum, por seu jardim e por todas as vidas que nascem nele.

Nesse nosso presente, agravado pela pandemia e pela quebra das economias, estão agora escancaradas as nossas fragilidades humanas e ecológicas e também o tanto que dependemos uns dos outros para viver. Já está claro que o único caminho para o seguimento do que entendemos como humanidade é escolher mais consciência, mais compromisso e mais solidariedade. Precisamos olhar à nossa volta com olhos limpos, enxergar nossas comunidades empobrecidas – e principalmente suas crianças, adolescentes e jovens – como as sementes poderosas que são. E, igualmente, tomar consciência das sementes poderosas que somos. Estamos todos aquém de nossas potências transformadoras. Potências que, somente se somadas e misturadas, conseguirão abrir as portas para o futuro da civilização. Precisamos inventar novos e enormes regadores para essas sementes, espalhá-los por todos os lugares. Precisamos reconhecer nossas raízes entrelaçadas. Precisamos desabrochar coletivamente e espalhar nosso perfume, nossa beleza, nosso encantamento e nossa diversidade. Perceber esses sinais divinos, naturais, que anunciam a colheita de verdadeiras mudanças.

Essa poética, que batizamos de Florescer Comunitário, é a nossa evocação, nosso chamado, nossa forma de pensar e agir para a justiça social; um método à serviço de projetos de cidades e de comunidades, a partir de uma pedagogia para escolas, universidades, instituições e empresas dos setores públicos ou privados. Não apenas como um discurso consciente em defesa da solidariedade, mas como uma proposta de vivências, processos e projetos que permeiam o cotidiano, transformam a sociedade por dentro e forjam nela uma solidariedade estrutural. 

Sem incluir em seus projetos um   equilíbrio social sustentável, as “cidades do futuro” ou as “cidades criativas” não passarão de devaneios de ficção científica fomentando desejos perversos de assepsia urbana.

Com pouco materialmente, mas com uma visão integral dos processos individuais e coletivos voltados para esse florescimento, nós do IVG, o Instituto Vilson Groh, ajudamos muitas crianças em áreas empobrecidas a desabrocharem como belíssimas flores em forma de educadores, médicos, artistas, engenheiros e tantos outros saberes que hoje servem à melhora da qualidade de vida das próprias comunidades de origem e das suas cidades. As mais lindas histórias, que suplicam para serem multiplicadas. 

Queremos propor o Florescer Comunitário como o sol de uma nova realidade a ser construída, dentro de cada um e ao redor de todos. Começando pelo nosso jardim, pela nossa cidade. 

É hora de levarmos as mãos à terra, jardineiras e jardineiros! A primavera é agora. É tempo de florescer. Tempo de flor, tempo de ser.

Padre Vilson Groh e equipe


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