PANDEMIA E EQUIDADE

substantivo feminino

  1. apreciação, julgamento justo.
  2. virtude de quem ou do que (atitude, comportamento, fato etc.) manifesta senso de justiça, imparcialidade, respeito à igualdade de direitos.
  3. justiça natural.
  4. Equidade é um dos princípios doutrinários do Sistema Único de Saúde (SUS) e tem relação direta com os conceitos de igualdade e de justiça. No âmbito do sistema nacional de saúde, se evidencia, por exemplo, no atendimento aos indivíduos de acordo com suas necessidades, oferecendo mais a quem mais precisa e menos a quem requer menos cuidados. Busca-se, com este princípio, reconhecer as diferenças nas condições de vida e saúde e nas necessidades das pessoas, considerando que o direito à saúde passa pelas diferenciações sociais e deve atender a diversidade.

Por muito admirá-los, faço como os professores que surpreendem os alunos que voltam do intervalo com a lousa já preenchida e esperam em silêncio a leitura curiosa. O dicionário, nesse caso, me poupa de dar explicações menos competentes sobre o que é a “equidade”. Ainda assim me vem na memória um exemplo prático: nos anos 90 em Buenos Aires, o Cardeal Bergoglio, hoje Papa Francisco, tinha uma regra para distribuir os padres pelas paróquias da cidade: quanto mais completa e destacada a formação, mais pobre seria o bairro onde viveria. Nada mais lógico.

Aos fatos: durante os últimos dias lemos notícias preocupantes sobre os primeiros sinais do avanço da pandemia sobre as periferias das maiores cidades brasileiras, que parecem sugerir o mesmo padrão que estamos vendo de forma mais adiantada nos EUA. Tudo aponta para um agravamento maior da doença nas populações negras, que são maioria nas nossas periferias. As mortes de negros em algumas cidades americanas chega a ser percentualmente 3 vezes maior do que a proporção de negros na população dessa cidade, chegando a alarmantes 90% em Albany, na Georgia. E os primeiros dados sobre a mortalidade de negros no Brasil, causadas pelo coronavírus, preocupam.

Considerando que a pandemia está chegando agora às comunidades pobres, eles já são 1/4 dos internados e 1/3 dos mortos do país. Especialistas debatem os pesos da condição social e do conhecido fator de risco aumentado entre os negros para doenças cardíacas e diabetes, que estão entre as principais comorbidades para a covid-19. O fato é que estão morrendo mais negros do que o percentual que eles ocupam nas áreas atingidas. Quem conhece nossa desigualdade e sabe onde e com que condição sanitária está grande parte da população negra do Brasil, não tem dúvidas de que essa condição de vida trará peso a esses números.

Outro grande problema é a imensa população jovem das periferias, sem aulas, sem alimentação, sem orientação familiar, sem informação direcionada e específica. Projeções colocam eles, ainda que na maioria assintomáticos, como os principais vetores de disseminação no avanço da pandemia nessas comunidades.

Apesar de nossos graves e complexos problemas sociais, Florianópolis tem tamanho, mapeamento e presença pelas equipes de saúde da PMF/ SUS e capilaridade em projetos da sociedade civil que podem contribuir para que a gente consiga deter em parte essas ondas. E se tratando de vidas, deter em parte significa muito. Mas precisamos da presença do poder público e da sociedade civil organizada nessas comunidades construindo ações como estas, por exemplo:

Organização e representação.

  • Criação de um canal permanente que una o poder público e os representantes das comunidades para centralizar as diretrizes, estratégias e ações do combate à pandemia nas periferias. Mantendo intacta a autoridade de saúde e sanitária da cidade, os movimentos organizados da sociedade civil que já tem raízes nas comunidades podem auxiliar na prevenção e na operação local das acões através da criação de forças tarefas, uso das redes de voluntariado e das redes de comunicação.

Prioridade para testes nas periferias.

  • As piores condições estruturais para o isolamento social torna o tempo sem teste em um portador do vírus dessas comunidades, muito mais danoso para a tentativa de bloqueio feita pela cidade.
  • Os idosos dessas áreas, em média, vivem menos e tem mais comorbidades e fatores de risco associados.
  • Maioria da população composta por negros, que começam a aparecer consistentemente entre os grupos de risco.
  • Projeções de que os jovens de periferia podem se tornar vetores que acelerem o contágio.
  • Acesso muito menor à rede privada de atendimento no caso dos agravamentos.

Comunicação direcionada.

  • Cartilhas oficiais com linguagem específica e criativa, educando para os protocolos de segurança levando em considerações as condições médias de vida e moradia das comunidades periféricas.
  • Vídeos didáticos com dicas dadas por pessoas das comunidades ou pessoas reconhecidas pelas comunidades.
  • Podcasts para que circulem nos telefones como uma rádio comunitária, acompanhando e alertando para a progressão da pandemia dentro desses bairros.

Como disse, esses são alguns exemplos, demandas de um contexto onde a velocidade dos fatos não permite que nada seja estanque. No fundamento desses pleitos, nada mais que o cumprimento racional dos princípios de EQUIDADE que sempre acompanharam o SUS.

Pe Vilson Groh


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