Três minutos de silêncio (e uma esperança).

Imagem Unsplash

Mais três funerais de jovens. Muito jovens. Sinto tristeza e dor. Mesmo imensuráveis, não podem se comparar com a tristeza e a dor das três mães que acabam de perder seus filhos. Eu as conheço. E conheço bem a rocha da qual são feitas essas mulheres, trabalhadoras, a maioria negras, do Morro do Mocotó e de todos os morros e comunidades dessa cidade. Essas mães que vivem sob o temor do destino dos seus filhos, temor pela presença ou recurso que podem faltar. “O que eu não consegui dar?”, “Porque uma morte horrível dessas Padre?”, são as perguntas que mais ouvi nesses quarenta anos vivendo no maciço do Morro da Cruz enquanto fazia os sepultamentos de quase todos os jovens mortos na guerra entre as gangues, ou com a polícia. Um número enorme, que não se conta.

A dor que sinto pelas mortes que voltam a acontecer agora é também pelas do passado. Todas se entrelaçam com meu tempo de vida aqui. Mas é sobretudo pelas mortes que o futuro não conseguirá evitar se nós não superarmos nossa falha mais elementar: a de não aprendermos com o que passou para transformarmos o que está por vir. Precisamos realizar um potencial que é evidente, o de criar uma cidade e uma região com mais equilíbrio social e econômico e, com ele, um verdadeiro desenvolvimento. Que sociedade somos nós hoje? Por que uma cidade que quer ser contemporânea, se consolidar como uma referência em tecnologia e qualidade de vida, repete os piores modelos e não os melhores quando falamos da parte mais pobre dessa população? Uma parte enorme e crescente. Os melhores modelos são os que usam todos os recursos possíveis para proteger e desenvolver sua juventude, principalmente sua parcela mais vulnerável. Os piores são os que atropelam as leis e transformam agentes da segurança pública em juízes e verdugos dessa juventude formada por pobres e negros. São os piores porque se submetem aos medos de uma parte da sociedade que segue presa a preconceitos e à idéia mercadológica de eliminação “do mal” por uma força implacável “do bem”. Uma teatralidade que muitas vezes resulta em enxugar gelo com sangue.

Sabemos todos que a maior parte do financiamento e da distribuição de lucros do tráfico de drogas não está nos morros. Para não constrangermos categorias inteiras de profissionais que servem à população dignamente, não precisamos nomear quais fazem parte da cadeia que enriquece muita gente fora dos morros com o tráfico de drogas. É assunto de domínio público, global, com muitos estudos, investigações e reportagens a respeito. Vemos também muitos jovens de famílias abastadas ou da classe média envolvidos. Nem falemos da impunidade institucionalizada nessas camadas sociais. O fato é que em nenhum lugar onde vivem essas pessoas a polícia considera procedimento invadir, intimidar, assediar, agredir, ferir ou atirar em alguém que não ofereça resistência. Imaginem em alguém de 15 ou 16 anos. Não é possível imaginar. E o que é impensável em alguns locais é “legítimo” em outros, para citar o termo ou classificação que as autoridades policiais seguem dando às ações como essas que vimos essa semana .

A guerra de versões é mais uma face da tragédia, onde fica indisfarçável a sub-categoria onde está enquadrada a maior parte dos moradores das comunidades. A gente trabalhadora, que segue construindo e desenvolvendo essa cidade com seu suor, é retratada muitas vezes como “protetora de bandidos” quando exigem no bairro onde vivem, o respeito de funcionários públicos. Peço que reflitam sobre a palavra RESPEITO, no sentido mais sagrado que ela pode alcançar.

O primeiro trabalho das forças policiais, incansável, obsessivo, precisa ser evitar a morte a todo custo. A farda deveria representar os que guardam a vida de TODOS, independente de ficha criminal, ou de uma suposta ligação com o tráfico. Não, as leis que nos regem não permitem que um policial faça esse julgamento, não admitem relativizar a vida por conta do envolvimento de um jovem com o comércio ilegal de drogas. Isso não é ingenuidade ou romantismo de um padre. Foi agindo dentro da lei que cidades pelo mundo firmaram pés na civilização e num desenvolvimento equilibrado. E nós trabalhamos todos os dias nas periferias para provar que os caminhos estão aí se nos unirmos de verdade. Incluindo, obrigatoriamente, as polícias, que tem entre seus trabalhadores muitos filhos dessas comunidades.

Qdo penso no Morro do Mocotó, lembro da Flávia, a primeira menina dos nossos projetos a se formar em medicina. A primeira de muitos médicos, advogados, engenheiros, policiais. Flávia também trabalhou como médica na comunidade e hoje é professora universitária. Sinto vontade de falar da imensa riqueza humana, cultural e histórica que forma a comunidade do Mocotó. Mas penso também na dignidade, na altivez e na força que construiu essa história. E aí silencio. O Morro do Mocotó não precisa lembrar a cidade de tudo que foi e é – por essa cidade inclusive – para ter o direito de condenar a forma como agentes públicos tem se portado ao tentar combater o tráfico em seu espaço. É como dizer “é pobre mas é honesto”, “é negro mas é trabalhador”, conceitos abomináveis que deixaram de frequentar as bocas da maioria mas ainda estão no inconsciente institucional de um país que está voltando a aprofundar, não só a desigualdade econômica, mas a desigualdade na destinação dos seus recursos e na orientação das políticas públicas.

Mortalidade dos jovens, ausência de infraestrutura, desproteção na pandemia, desemprego avassalador. A chave para os problemas de hoje que deveriam nos envergonhar e mobilizar de imediato é a mesma: a inversão de prioridades orçamentárias contra uma resistente cultura colonial, que naturaliza o desrespeito aos trabalhadores que sustentam nossa estrutura social e até a morte violenta de seus filhos. A grande maioria da sociedade segue de costas.

Lembro também das muitas madrugadas indo ao encontro desses jovens nos pontos do tráfico, dezenas e dezenas deles que no dia, na semana, no mês ou no ano seguintes, me procuraram para dizer que queriam a chance. A grande maioria a agarrou e segue agarrando com êxito. Mas é um trabalho que precisa ser multiplicado por mil, ser uma missão de todos. Sinto culpa por esses que perderam a vida violentamente, por essa chance não os ter encontrado.

Volto ao sepultamento para fazer da palavra ao desconsolo das mães, como sempre, uma convocação: transformemos essa dor em renascimento. Vamos cobrar justiça, segurança, direitos, serviços públicos, infraestrutura, de quem tem a obrigação constitucional de oferecê-los com equidade. Mas vamos ser também agentes da mudança que precisa acontecer para todos os filhos das comunidades. Voz e liberdade, também se conquistam.

Pois hoje recebi o convite para participar de uma conversa virtual com um grupo de jovens do Morro do Mocotó, eles traziam uma carta endereçada às autoridades e uma vontade grande de fazer um movimento jovem em defesa da vida e da comunidade. Meu coração se encheu de esperança.

Para nutrir as raízes desse sentimento, deixo as palavras urgentes do Papa Francisco em seu Plano Ressucitar:

“Não tenhamos medo de viver a alternativa da civilização do amor, que é uma civilização da esperança, contra angústia e o medo, a tristeza e o desalento, a possibilidade e o cansaço. A civilização do amor se constrói no dia a dia de modo ininterrupto, pressupõem o esforço comprometido de todos. Supõem para isso uma comprometida comunidade de irmãos.”

Pe Vilson Groh


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