Um dia especial – Encontro de Bolsistas da REDE IVG

Na presença do Pe. Vilson Groh, dos educadores Valdirene, Nilcea, Miguel, João e Tainara e de 25 jovens bolsistas da Rede IVG realizamos no último domingo, 26/07, mais um encontro de escuta e acompanhamento do Programa de Bolsas da Rede IVG. O tema foi o encerrar de um ciclo, olhando para a caminhada do primeiro semestre de 2020, seus desafios e avanços. 

Tivemos a presença do Pe. Vilson, rememorando a todes que não há democracia e cidadania sem conhecimento, sem a leitura crítica do mundo, do outro, da gente mesmo. Nos ensinamentos do educador Paulo Freire, que diz  “Eu nunca poderia pensar em educação sem amor. É por isso que eu me considero um educador: porque acima de tudo eu sinto amor“, Pe. Vilson iniciou o encontro provocando a reflexão sobre a importância de aprender a ler vida com amorosidade. Também prestou agradecimentos, em nome do Instituto IVG, à educadora Valdirene Soares Machado, que neste mês encerra um ciclo prestando assessoria pedagógica para o IVG. E apresentou a Educadora Tainara Lemos das Neves, que passará a acompanhar e coordenar o Programa de Bolsas.

Ao se despedir do grupo de Bolsistas, Valdirene leu aos jovens uma “Carta Pedagógica” agradecendo por conhecer um pouquinho das histórias do grupo “aprendi muito com cada uma delas, e em muitas me reconheci. E isso me faz refletir o quanto é importante ouvir as histórias. Ao ouvir e ao contar nossas histórias nos reconhecemos, nos tornamos mais próximos, nos respeitamos.”

Após suas apresentações, em um momento de gratitude e emoção, os jovens também expuseram seus agradecimentos pela caminhada junto a Val, como carinhosamente a chamam, e, para encerrar o encontro, a estudante Ana Paula representando o grupo interpretou a música “Dia especial”. O próximo encontro coletivo ocorrerá no dia 16/08.

Abaixo, na íntegra, leia a Carta Pedagógica da Educadora Valdirene aos jovens do Programa de Bolsas da Rede IVG:

Carta aos estudantes 

Queridos e queridas estudantes! 

Escrevo essa carta com o intuito de compartilhar emoções, sentimentos, reflexões sobre minha caminhada junto a vocês! 

Nosso grande educador Paulo Freire cunhou o termo “Cartas Pedagógicas”. Me desafio a escrever essa a vocês, por que foi a maneira que encontrei de expor o que penso, o que sinto, o que aprendi, e o que me traz curiosidade. 

Toda escrita é uma síntese de vivências, experiências, leituras e aprendizados. E eu gostaria de destacar algumas características que considero importantes para sermos profissionais mais humanos, independente da área que decidirmos estudar: 

– Ter a honra de sermos quem somos, nos orgulhar de nós mesmos e de nossa história. Do lugar de onde viemos, de nossas comunidades, de nossos antepassados e de nossos anciões que ainda vivem entre nós. Reconheço que não é fácil adentrarmos em espaços formais de educação em nosso país. Eu mesma já enfrentei muitos preconceitos, e ainda os enfrento, principalmente ao que se refere a minha classe social. Percebo, que quanto mais adquiro consciência de quem sou, mais eu sinto vontade de seguir em frente. É preciso persistir, mesmo quando o caminho é difícil. Nesse sentido, nossa caminhada é sempre a continuidade de outras pessoas que já vieram antes de nós, que abriram trincheiras, e lutaram, para que hoje pudéssemos estudar. Muitas dessas pessoas até perderam a vida na luta. 

Agradeço por conhecer um pouquinho das suas histórias, aprendi muito com cada uma delas, e em muitas me reconheci. E isso me faz refletir o quanto é importante ouvir as histórias. Ao ouvir e ao contar nossas histórias nos reconhecemos, nos tornamos mais próximos, nos respeitamos.

 – Desenvolver o sentido de dever com a sociedade e com o ser humano que desejamos construir. Cuidar de nossas relações. Buscar realizar nossos sonhos, levando tudo isso em consideração. Não somos ninguém sozinhos. E assim como não nos fazemos sozinhos, podemos ajudar aqueles que caminham do nosso lado, ou que, em algum momento cruzam os seus caminhos conosco. A nossa formação é mediada pelas pessoas que passam por nossas vidas, em diferentes momentos. 

– Devemos desenvolver nossa sensibilidade, e nos indignarmos com as injustiças. Sentir indignação e querer mudar tudo aquilo que nos oprime e oprime as outras pessoas. Fazer isso com seriedade e determinação, colocando todo nosso conhecimento em favor da liberdade, da justiça e do desenvolvimento da vida.

 – Ter postura indagadora quando não compreendermos algo, não importa com quem falamos. Essa é uma atitude de quem busca conhecer, que está aberto ao novo, e tem compromisso com a rigorosidade do conhecimento. 

E por último, gostaria de dizer que uma coletividade não é um amontoado de gente, mesmo que tenham os mesmos objetivos. Mas um grupo que busca desenvolver a consciência coletiva, reconhecendo sua identidade, e a partir dela, estabelece outros objetivos mais estratégicos, para que todas as pessoas que estão envolvidas, façam a melhor caminhada. Não é necessário que todos passem pelas mesmas experiências para que aprenda algo. A coletividade pode/deve ajudar na caminhada. Por isso, uma coletividade possui outra característica, para além de um amontoado de gente. Ela precisa ter uma estrutura de funcionamento, que envolva todas as pessoas. Onde todas participem. Mas participar de uma coletividade não basta ser membro. É preciso compreender qual seu papel, que pode não ser o mesmo em diferentes momentos. Mas devemos buscar exercê-lo da melhor maneira. Se sou um coordenador ou coordenadora, por exemplo, devo estar atenta ao meu grupo, ter iniciativa de liderar com humildade, e interesse na sua caminhada. Todas as pessoas podem aprender a coordenar. É importante não deixar ninguém de fora. 

Queridos e queridas estudantes, é tempo de expressar toda a nossa capacidade humana em defesa da vida, e isso não é pouco. Sou muito grata por ter convivido com vocês e conhecer a riqueza de suas vidas. Mas nossa caminhada conjunta se encerra nesse momento e isso deve nos deixar alegre. Levo muitos aprendizados. O momento que estou vivendo também é de dedicação ao estudo. E estudar exige rigorosidade metódica, como diz Paulo Freire. Exige tempo e disciplina. Estou feliz por essa conquista, de poder estudar em uma universidade pública, e dedicar esse tempo para o doutorado com bolsa de estudos. 

Considero que fizemos um lindo caminho, e o vínculo construído com vocês é um vínculo que me aproxima de mim mesma e de minha humanidade. Um vínculo que não se rompe com meu afastamento do acompanhamento da caminhada estudantil de vocês, mas que fortalece meu compromisso de educadora e como pessoa. Por meio de vocês me aproximei das comunidades de Florianópolis. Hoje me sinto mais parte desse lugar, onde escolhi morar, estudar e atuar profissionalmente. Floripa já não é para mim um lugar de passagem, de férias. Me sinto acolhida e fortalecida para seguir essa caminhada agora de estudante, e aperfeiçoamento necessário como profissional da educação, compreendendo muito mais dessa realidade. E por tudo isso, agradeço imensamente!

 Sugiro ainda, que na continuidade da formação de vocês, atentem para grandes temas que nos envolvem. É preciso conhecer a história e compreender o que estamos vivendo a cada momento, para sairmos das explicações simplórias, que atrofiam nosso cérebro, nossa capacidade criativa e nos desumanizam. Considero importante, retomar com profundidade a discussão dos direitos humanos, discutir sobre a educação em nosso país, sobre a relação saúde/ambiente, sobre tecnologias: apropriação delas como conhecimento e democratização de seu acesso. 

E por fim, cito a importância de compreender as relações de trabalho na sociedade capitalista, e suas consequências no nosso modo de vida.

 Me despeço com amor, e desejo uma ótima caminhada coletiva! 

Carta escrita por Valdirene Soares Machado Florianópolis, 26 de julho de 2020. (Contexto de Pandemia da Covid 19) 


Compartilhe esta publicação


Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *